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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

DESENVOLVIMENTO SOCIAL EM ECO-REDE - Bases filosóficas para a sustentabilidade - Progredir é voltar à harmonia com a natureza - O amor como força e liame na rede da vida - Uma ética inspirada pela física contemporânea - Pequenas mudanças promovem profundas transformações - Auto-transcendência psíquica e biológica - É possível a real sustentabilidade ? - Reinventar as relações sociais

Desenvolvimento Social e Sustentabilidade 
Condições - Em rede sistêmica  - Em sintonia com a estrutura do universo e com a natureza auto-organizativa dos seres vivos

Por Iria Zanoni Gomes
Harmonia Homem-Natureza :
a questão crucial

Titulos e sub-titulos adicionados pelo editor     

Publicação inédita sob autorização da autora

Segunda parte de :
Propostas para um Planeta Realmente Sustentável


BOHM, QUÂNTICA E A ESTRUTURA DA MENTE
Em 1951, Bohm[1] fez algumas analogias entre os processos quânticos e os processos do pensamento. Segundo ele, o universo se parece mais com um grande pensamento do que com uma grande máquina: existe uma semelhança entre a estrutura da matéria e a estrutura da mente, o que significa que não se pode falar em matéria sem falar em espírito (consciência). Nesse sentido, a consciência humana tem um papel fundamental no processo de observação e construção da realidade, nas teorias sobre o mundo físico, psíquico, econômico, social, político etc., na própria construção da realidade, pois a consciência parece ser um aspecto essencial do Universo.

               A CONSCIÊNCIA E OS EVENTOS SINCRÔNICOS
Para Bohm, ainda, a realidade deve ser entendida como uma totalidade ininterrupta, onde ocorrem conexões locais (explícitas, conhecidas, do cotidiano) e conexões não-locais (implícitas, ocultas, imprevistas, instantâneas). As conexões não-locais seriam a essência da realidade quântica e expressariam a atividade da consciência. No nível macro, as conexões não-locais não são percebidas. Mas são elas que explicam os eventos sincrônicos,[1] que normalmente atribuímos a coincidências, ao acaso. A experiência da conexão, portanto, é uma experiência da consciência.
Essa experiência, penso, nos permite fazer a conexão com a natureza, com os outros seres e com nós mesmos. Ou seja, não podemos falar da Natureza sem falar de nós mesmos. Ao agir sobre a natureza estamos agindo sobre nós mesmos. Isso é importante para que tenhamos consciência de que podemos fazer outras escolhas, trilhar outros caminhos.

              A TEIA DA VIDA
Mas, se a física contemporânea fala de teia cósmica, de relações, de conexões, interconexões, de auto-organização, irreversibilidade, rupturas, bifurcações, singularidades, a teoria sistêmica da vida, da moderna biologia, vai nos dizer que a teia cósmica é a própria teia da vida.
A concepção sistêmica trata dos organismos vivos e sua relação com o meio ambiente. Vê o mundo em termos de relações e integração: os sistemas são totalidades integradas, que se fundamentam em princípios básicos de organização e só podem ser entendidos a partir de relações, conexões, contextualização. Nessa concepção, todos os organismos, sejam  biológicos - das bactérias ao homem -, sejam sociais ou ecossistemas, são considerados sistemas. Sistemas abertos, que se auto-constroem a partir de um fluxo de informações, o que caracteriza os sistemas vivos como auto-organizadores. Auto-organização que se dá na relação com o meio: auto-eco-organização, na concepção de Edgar Morin, que a exprime no tetragrama ordem/desordem/interação/organização.

              A AUTO-ORGANIZAÇÃO DOS SERES VIVOS
Uma característica básica dos seres vivos é a flexibilidade: os seres vivos se auto-organizam (a ordem interna depende de como o sistema elabora/processa o fluxo de informações), têm autonomia (a organização interna se mantém mesmo que o meio ambiente mude), se renovam (mantendo a estrutura) e auto-transcendem (vão além dos limites físicos e mentais: criam, inventam novas formas, aprendem, se desenvolvem, envolvem). É a auto-transcendência que permite aos sistemas vivos criar novos padrões e novas estruturas, o que significa que a evolução é uma manifestação essencial dos sistemas auto-organizadores.

               AUTO-TRANSCENDÊNCIA E A VIDA COMO PROCESSO
A capacidade dos seres vivos de auto-transcendência, de criação de novos padrões e novas estruturas, permite que se entenda que na concepção sistêmica a noção de padrão é fundamental. O padrão é entendido como configuração de relações e se expressa fisicamente numa estrutura. Como padrão e estrutura são dinâmicos, a relação entre os dois é o processo. Na ótica sistêmica se trabalha com processos. E como a vida é processo, ou seja, algo constantemente sendo reconstruído, a auto-organização é o reconhecimento de que a rede, a teia é o padrão geral da vida. Rede auto-poiética, auto-construtiva, pois auto-organização implica cognição: redes cognitivas. Cognição é processo. O processo da vida é um processo cognitivo, pois  produz constantemente a si mesmo, ou seja, processa informação.
O entendimento da vida como processo é fundamental para que assumamos que temos, neste momento da história da humanidade, uma oportunidade de mudar o padrão dominante na nossa sociedade, ou seja, nosso modo de ser e fazer, criando novas estruturas, novos processos.
Para Maturana e Varela, autores que introduziram a cognição como elemento essencial da vida, o ser e o fazer dos sistemas vivos são inseparáveis e este é o seu modo específico de organização. E, para Bateson, a evolução biológica só pode ser entendida enquanto processo mental. Essa constatação é outro elemento que une os seres humanos e a natureza, ou seja, o elo que liga entre si todos os seres vivos que habitam o planeta terra. Na ótica sistêmica, como na física contemporânea, é no nível da mente que se dá a conexão entre todas as expressões de vida.

               ECOSSISTEMAS E REDE SOCIAL
A noção de rede, portanto, é importante para a ruptura com o paradigma clássico. Capra insiste em que devemos tomar como referência os ecossistemas para pensarmos o sistema social, a organização da sociedade. Os ecossistemas se fundamentam na cooperação, na parceria, na troca. Interagem. A competição até pode existir, desde que não coloque em risco a sobrevivência do sistema maior. Os resíduos de uma espécie são alimento de outra. A matéria circula continuamente pela teia da vida. A diversidade é garantia de sobrevivência. A vida, desde os primórdios, não tomou conta do planeta pela violência, mas pela sua organização em conexões e redes.[1]
                PEQUENAS MUDANÇAS PROMOVEM GRANDES TRASNFORMAÇÕES
Espelhar-se nos ecossistemas, como recomenda Capra, significa começar a construir redes auto-poiéticas de forma consciente, a partir de escolhas que respeitem a vida, a diversidade em todas as dimensões: a bio-sócio-diversidade. Não precisamos construir algo grandioso. Pode ser pequeno, nos limites das nossas relações. Até porque, uma das descobertas da teoria do caos[2] é de que pequenas mudanças produzem grandes efeitos. No momento em que elas acontecem podemos não perceber seus efeitos, mas na flecha do tempo eles ficarão visíveis. Essa descoberta é importante para nossa mudança de consciência: não precisamos mais pensar que só ocorrem mudanças quando grandes estruturas mudam - concepção, aliás, que muitas vezes levou ao imobilismo -, mas entender que qualquer mudança, por menor que seja, atinge a teia toda.

               A FÍSICA QUÂNTICA E A TEIA CÓSMICA
A ciência da complexidade, portanto, nos dá os fundamentos para entender que as mudanças podem ser imperceptíveis, mas importantes dentro da forma como a vida é organizada, dentro do padrão rede. Padrão que não é exclusivo dos sistemas biológicos. A física fala da teia cósmica, introduz a consciência na matéria. O padrão rede tem sido reconhecido como o padrão de organização do Universo. Neste sentido, o que ocorre aqui repercute no Universo inteiro. Sendo a mente não-localizada, enquanto indivíduo meu pensamento está conectado com todas as mentes humanas, com a Mente Universal.

              A ÉTICA QUE A FÍSICA CONTEMPORÂNEA INSPIRA
E, se a física contemporânea tem como um dos seus pressupostos filosóficos a conexão matéria/mente, no nível da mente estamos conectados com todas as expressões de vida, biológicas ou não, do planeta, do universo inteiro. Essa constatação nos traz a consciência da responsabilidade e da ética. Ética no sentido de respeito a todas as formas de expressão da vida: físicas, biológicas, sociais, às diferenças culturais, de pensamento, espirituais. Enfim, respeito à diversidade, à biodiversidade. Ética e responsabilidade no sentido de fazer escolhas, porque nossas escolhas repercutem na nossa vida, na vida dos outros seres humanos, das outras espécies, na vida do planeta. Ampliar a consciência de cidadão para  uma consciência planetária.

              O AMOR COMO FORÇA DE CONEXÃO NOS ELOS DA TEIA
Maturana[3] diz que para podermos mudar nosso modo de viver, nosso padrão de organização da vida, precisamos recuperar o sentimento básico que nos permitiu viver em sociedade: o amor. Só o amor possibilita conectar, acolher o outro, cuidar. O ser humano, segundo esse autor, não se define pela agressão, pela luta, mas pela coexistência na aceitação do outro como um legítimo outro na convivência.
               Para Maturana, ainda, só o sentimento do amor pode nos fazer construir um mundo em que a natureza seja respeitada, um mundo no qual se devolva o que se toma emprestado da natureza para viver. (....) um mundo no qual seja abolida a expressão “recurso natural”, no qual reconheçamos que todo processo natural é cíclico e que, se interrompermos seu ciclo, se acaba.[1]
  
               O PROGRESSO É A VOLTA À HARMONIA COM A NATUREZA
Acreditávamos no mito de que o progresso estava no crescimento econômico, no desenvolvimento da tecnologia, no domínio da natureza. Maturana diz não. O progresso está na compreensão do mundo natural, que permite recuperar a harmonia e a beleza da existência nele, com base no seu conhecimento e no respeito por ele, (....) sem pretender dominá-lo ou negá-lo.[2]

               O REENCANTAMENTO E A VOLTA AO SAGRADO
Vida sustentável pode ter relação com reencantamento do mundo? Sim, se assumimos o olhar da complexidade, que abandona a imagem do universo máquina para assumir a imagem do universo organismo. A descoberta do princípio da organização transformou o mundo da natureza e dos homens num mundo único e encantado. Para Prigogine, o saber (....) pode descobrir-se hoje ao mesmo tempo como ‘escuta poética’  da natureza e como processo natural na natureza, processo aberto de produção e invenção, num mundo aberto, produtivo, inventivo.[3] É o momento de estabelecer um novo diálogo entre a história dos homens, de suas sociedades, de seus saberes e a aventura exploradora da natureza[4]. Este diálogo implica recuperar o sagrado em nossa vida: quem somos, de onde viemos e para onde vamos? Recuperar o sagrado é entender o sentido de estarmos aqui, entendimento que modifica nosso modo de ser e de estar no mundo, pois nos ajuda a agir não como alguém indiferente ao processo da vida, mas como um participante consciente. 

É POSSÍVEL A REAL SUSTENTABILIDADE ?
É possível construir uma vida sustentável neste planeta, assentada no diálogo entre o Homem e a Natureza? Sabemos que os desafios são muitos e que uma transformação global para um mundo sustentável não será fácil, nem se fará de repente e espontaneamente. Penso como Guattari, que só uma articulação ético-política, entre o que ele chama de três registros ecológicos - meio ambiente, relações sociais e individuais - , poderá nos ajudar a superar a crise ecológica em escala planetária. Ou seja, somente a construção de uma Eco-sofia será capaz de operar uma verdadeira "revolução política, social e cultural", que reoriente a produção tanto de bens materiais quanto imateriais, no sentido da sustentabilidade da vida no planeta.

              REINVENTAR AS RELAÇÕES SOCIAIS
É necessário esclarecer que não se está pensando num modelo de sociedade pronto, mas na proposição de um conjunto de práticas eco-sóficas (no âmbito mental, social e do meio ambiente), que implicariam na emergência de uma nova consciência, novos valores, novas atitudes, novas escolhas. Isso significaria, como afirma Guattari, do ponto de vista da  ecologia social, reinventar maneiras de ser nas relações de trabalho, no interior da família, nas relações de vizinhança, nas instituições, na política, na economia, enfim, reconstruir o modo-de-ser em grupo. Na ecologia mental, reinventar a relação dos indivíduos consigo mesmos: com o corpo, com o inconsciente -  no sentido psicanalítico -, com o tempo e com "os 'mistérios' da vida e da morte." E, no que diz respeito à ecologia ambiental, fundamentar-se no princípio de que, cada vez mais, os equilíbrios naturais dependerão da relação que o homem estabelece com o meio ambiente. E se o homem esteve em guerra com a natureza, ou seja, contra a vida, precisará aprender a adotar práticas que tenham como critério a processualidade da vida. Mesmo porque corremos o risco de não ter mais vida neste planeta.
Trata-se, portanto, de fazer parar o crescimento destrutivo inerente ao padrão de produção e consumo capitalista dominante no planeta, construindo "novas práticas sociais, novas práticas estéticas, novas práticas de si na relação com o outro".

              TRANSFORMAÇÕES QUE JÁ ESTÃO OCORRENDO
Pode parecer que tudo isso esteja muito longe da realidade atual. No entanto, é preciso lembrar que essas práticas já estão ocorrendo de uma forma ainda bastante dispersa em todo o planeta. E que é da articulação entre indivíduos que investem em sua transformação, uma sociedade em estado de transformação e um meio ambiente num momento em que pode ser reinventado, que podemos enfrentar a maior crise que a humanidade já viveu em sua história.

              CONDIÇÕES BÁSICAS PARA UM PLANETA SUSTENTÁVEL
Para concluir, diria que a construção de um planeta sustentável só será possível a partir de um processo contínuo de reinvenção, de reconstrução de nossas percepções e práticas, na ótica da responsabilidade e da ética, do amor e da paz. Isso significa o espaço da heterogênese, da diferença: nos três registros (mental, social e do meio ambiente), tornarmo-nos cada vez mais solidários, mas cada vez mais convivendo e aceitando as diferenças, a diversidade, a biodiversidade.
Construir um modo de ser ético, significa que ele deverá estar presente "ao mesmo tempo no mundo do meio ambiente, dos grandes Agenciamentos sociais e institucionais e (....), no seio das paisagens e dos fantasmas que habitam as mais íntimas esferas do indivíduo",  lembrando-nos que a emergência de novas práticas, num campo, passa a instaurar-se em outros campos.

              A CONSTRUÇÃO DA ECO-SOFIA
A construção, portanto, de uma Eco-sofia (ecologia mental, social e ambiental) poderá significar a construção de uma vida sustentável, ou seja, a retomada, pela humanidade, da confiança em si mesma, bem como da responsabilidade pelo seu próprio destino e pelo destino do ecossistema planetário.

              UM CASO : AGENDA 21 PARANÁ : PARCERIA, SOLIDARIEDADE....
Acredito que a Agenda 21 Paraná tem pautado suas propostas dentro desta ótica. Vejo a Agenda 21, enquanto orientação de ações, como um ponto de ruptura com a subjetividade capitalista, como uma facilitadora da emergência de um novo padrão de organização da vida, de orientação de um novo modo de relacionamento do homem com a natureza e com os outros homens. A forma como a Agenda 21 vem sendo implantada em nosso estado, com todas as dificuldades, desafios, avanços, recuos, está muito próxima da forma como os ecossistemas estão organizados, pois em suas práticas estão presentes a parceria, a solidariedade, a incorporação criativa de novas relações, onde a ética e a responsabilidade têm sido os princípios orientadores das ações no sentido de construção de uma vida sustentável em nosso planeta.

Iria Zanoni Gomes

O texto acima é a segunda parte de Propostas para um Planeta Realmente Sustentável
Neste blog

Da mesma autora : DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, MITO E CONTRADIÇÕES
Neste blog

Conheça mais sobre a autora em "A revolta dos posseiros" - Paraná - 1957
http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/8992
Por favor, se copiar e divulgar este texto, adicione o link desta fonte :
http://ambienteecologicoblog.blogspot.com.br/2013/11/desenvolvimento-social-em-eco-rede.html


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGENDA 21 PARANÁ. SEMINÁRIOS MACRORREGIONAIS DA AGENDA 21 PARANÁ: Os desafios por uma cidadania planetária. Governo do Paraná. SEMA. Curitiba, 2003. 
BATESON, G. Natureza e Espírito: uma unidade necessária. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987.
BOHM, David. A totalidade e a ordem implicada. Uma nova percepção da realidade. São Paulo: Cultrix.1992.
CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 1986.
______. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. Trad. De Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Cultrix, 2002.
GLEICK, James. CAOS: A criação de uma nova ciência. Trad. de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Campus, 1990.
GOSWAMI, Amit et alii. O Universo autoconsciente: como a consciência cria o mundo material. Trad. de Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1998.
GUATTARI, Félix. As Três Ecologias. 3a. ed. Campinas: Papirus Editora, 1991.
____. Caosmose, um novo paradigma estético. Tradução Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
____. Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo. 3.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
GUATTARI, Félix e ROLNIK, Suely. Micropolítica. Cartografias do Desejo. Petrópolis: Vozes, 1986.
JAPIASSÚ, Hilton. A crise da razão e do saber objetivo. As ondas do irracional. São Paulo: Editora Letras & Letras, 1996.
MATURANA, Humberto. Emoções e Linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999.
PRIGOGINE, Ilya e STENGERS, Isabelle. A Nova Aliança: a metamorfose da ciência. Brasília: Editora da UNB, 1984.
PRIGOGINE, I. O nascimento do tempo. Portugal, Lisboa: Edições 70, 1990.
ROLNIK, Suely. Cidadania e Alteridade. IV Encontro Regional de Psicologia Social. ABAPSO. São Paulo: 1992. mimeo.
RUELLE, David. Acaso e Caos. Trad. de Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1993.



[1] Idem, p.34-35.
[2] Idem, p.35.
[3] PRIGOGINE E STENGERS. A nova aliança. 1984.
[4] Idem.




[1] CAPRA, F. Entrevista. In: Ecológica. A revista da natureza. Curitiba, 2005
[2] Teoria “descoberta” pelo meteorologista Edward N. Lorenz. Para muitos cientistas, a descoberta do caos foi a terceira grande descoberta do século XX. A primeira e a segunda foram a física quântica e a relatividade.
[3] Emoções e Linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: Editora da UFMG. 1999.



[1] Conceito criado por Gustav Jung.




[1] BOHM, David. A totalidade e a ordem implicada. Uma nova percepção da realidade. São Paulo: Cultrix.1992.


Publicação inédita neste blog sob autorização da autora.
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quarta-feira, 17 de abril de 2013

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL : MITO, CONTRADIÇÃO, PARADIGMA E PERCEPÇÕES - Um conceito da produção e consumo capitalista - Desenvolvimento sustentável segmentado não é possível - A visão cartesiana não corresponde à realidade - Vida Sustentável, ao invés de Desenvolvimento Sustentável - Vida Sustentável é possível aos seres humanos, à vida e ao planeta - A ilusão da visão objetiva da realidade fracassou - Infoera : a era do conhecimento, mas qual conhecimento ?....Texto inédito como postagem simples - Primeira parte

"Pensar a partir de relações é aprender a "pensar como pensa a natureza", o que nos ajudaria a viver em harmonia no nosso planeta."

"DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL : MITO, CONTRADIÇÃO, PARADIGMA E PERCEPÇÕES"

PRIMEIRA PARTE

Publicado como pdf, juntamente com outros textos que resumiram os conteúdos da Agenda 21 Paraná, em 1997. A autora autorizou a publicação inédita na forma de postagem simples, neste blog, em 2013. Aguarde a segunda parte inscrevendo o seu email em Grupo Ambiente Ecológico

Publicado na íntegra. Os sub-titulos foram criados pelo editor


Por Iria Zanoni Gomes



Repensar a relação do Homem com a Natureza
Desde a Eco 92, o desenvolvimento sustentável tem sido colocado como objetivo a ser alcançado pela sociedade e governo juntos, o que significa estabelecer limites e atitudes para assegurar a vida no planeta, através da preservação das riquezas naturais e do melhoramento da qualidade de vida das populações. Para alcançar este objetivo, a Agenda 21 Paraná tem enfatizado a necessidade de mudança de atitude, no sentido de repensar a relação do Homem com a Natureza e consigo mesmo, para construir, coletivamente, um futuro melhor para todos.

Mudanças de percepções, de valores e reflexão
Quando falamos em mudança de atitude, estamos nos referindo à mudança de consciência, ou seja, mudança de percepção, de valores, de modos de viver, de escolhas. Eu perguntaria: é possível discutir mudança de consciência sem passar por uma reflexão dos pressupostos da visão de mundo predominante e que orienta nossas escolhas desde o século XVII? Visão fundamentada no desenvolvimento do conhecimento científico e tecnológico e que se transformou na própria ideologia do capitalismo, apesar do pressuposto de ciência objetiva, neutra, expressão da Razão, que nos possibilitaria, enfim, conhecer tudo e ser felizes? Além disso, quando falamos em desenvolvimento sustentável não estamos partindo do pressuposto de que desenvolvimento tem a conotação de crescimento, de transformação em algo colocado a priori? Estou pensando nas intensas discussões, nas décadas de 1960 e 1970, a respeito do conceito de desenvolvimento: crescimento econômico x distribuição social, desenvolvimento x subdesenvolvimento, nações centrais x nações periféricas, sociedades tradicionais x sociedades modernas, desenvolvimento x marginalidade, marginalidade x trabalho assalariado x pobreza etc.

Contradições
Teoricamente, as discussões se fundamentavam na teoria da modernização e, predominantemente, na teoria da dependência. As contradições do desenvolvimento capitalista eram evidenciadas nas desigualdades econômicas e sociais dentro de um país e entre países, numa relação de dependência, dos países periféricos/subdesenvolvidos aos países centrais/desenvolvidos. Contradições, aliás, que o Capitalismo Mundial e Integrado, hoje chamado de globalizado, só acentuou, com um agravante: a destruição do meio ambiente natural.

O consumo e a produção capitalista destroem
A proposta atual de desenvolvimento sustentável nasce da situação limite que vivemos hoje e que coloca em risco a sobrevivência da humanidade enquanto espécie e de toda a vida no planeta. Mas, não podemos esquecer que essa crise foi gestada no processo de construção da subjetividade capitalista e que, hoje, as contradições econômicas e sociais se acentuaram e a destruição da natureza não é apenas mais uma contradição, mais um problema. É resultado do padrão de produção e consumo predominante no modo de produção capitalista que explora, domina e destrói os seres humanos e a natureza da mesma forma.

Relação direta entre o conceito de desenvolvimento sustentável e o interesse capitalista
Levando em conta essa situação, gostaria de levantar algumas questões para reflexão: quando pensamos em desenvolvimento sustentável não estamos continuando a refletir dentro da lógica capitalista, apenas incorporando agora a sustentabilidade? Não é ainda o desenvolvimento a "variável" básica à qual se acrescenta a sustentabilidade? As ações, os programas, os projetos sustentáveis, não têm como requisito básico a agregação de valor? O lucro, o "crescimento econômico" não é ainda o essencial? A sustentabilidade é incluída se ela não gerar lucro? Ou seja, como pensar em desenvolvimento sustentável, se historicamente desenvolvimento tem a conotação de desenvolvimento capitalista? E, se desenvolvimento tem relação com o padrão de produção e de consumo capitalista vigente em nossa sociedade, a sustentabilidade, seja social ou ambiental, não implicaria romper com este padrão?

Em vez de desenvolvimento sustentável, "vida sustentável"
Não pretendo responder a essas questões, mas penso que ajudariam na reflexão da questão da sustentabilidade enquanto requisito para a continuidade da vida no planeta. Neste sentido, ao invés de desenvolvimento sustentável - onde nas suas origens desenvolvimento tem uma conotação econômica e social e sustentabilidade uma conotação ambiental -, gostaria de pensar a construção de uma vida sustentável neste planeta.
Para refletir sobre os nossos desafios, enquanto seres enraizados no planeta terra, tomarei como referência o físico Fritjof Capra, que considero um dos cientistas mais comprometidos em propor alternativas para a construção de uma vida sustentável¸ que garanta nossa sobrevivência e a das gerações futuras.

O capitalismo, em si mesmo, é insustentável, segundo Capra
Para Capra, o capitalismo global na sua forma atual é insustentável, pois contradiz a concepção de que sustentabilidade é a responsabilidade de repassar para nossos filhos, netos e as futuras gerações um mundo com tantas oportunidades quanto as que nós recebemos. Hoje, quando se fala em crise ecológica, não se está apenas fazendo referência ao meio ambiente. Está se falando da crise do sistema capitalista, construído pari passu ao projeto da modernidade. O modo de produzir e consumir dominante em nossa sociedade é que transformou insustentável a vida no planeta, seja do ponto de vista pessoal, social ou da natureza.

Com novas percepções e valores, seria possível
Para construir uma vida sustentável é necessário que a organização social e a nossa relação com a natureza sejam transformadas. Isso implica escolhas políticas mais do que escolhas econômicas. Implica, também, a construção de uma nova percepção de mundo, de novos valores, atitudes, estilos de vida, novas formas de organização social e de relação com a natureza, uma nova consciência.
Segundo Capra, vivemos hoje
(....) uma crise complexa, multidimensional, cujas facetas afetam todos os aspectos de nossa vida - a saúde e o modo de vida, a qualidade do meio ambiente e das relações sociais, da economia, da tecnologia e política. É uma crise de dimensões intelectuais, morais e espirituais,( ....).
Não é apenas uma crise energética, ambiental, social, urbana ou populacional. É uma crise planetária decorrente da situação deteriorada do meio ambiente, das relações sociais e individuais, que coloca em questão nossa maneira de viver, que tem se transformado num risco a nossa sobrevivência enquanto espécie, bem como a toda a vida no planeta.
Para Capra, trata-se de uma crise de percepção. Não do ponto de vista intelectual, mas como consciência de nossa integração com o universo: percebemos a realidade e atuamos nela a partir de uma visão fragmentada, herança da visão mecanicista cartesiana - ênfase no método científico e no pensamento racional - quando o mundo já não pode mais ser entendido a partir dessa perspectiva.

A Ciência, o primado da Razão e da Ética e o desencantamento do mundo
Levando em conta que em todas as épocas predomina uma visão de mundo (mitológica, religiosa, científica), que dá sentido às ações dos homens, o pensamento científico (que nasce no final do século XVI, início do século XVII e se impõe no século XVIII com o Iluminismo) se tornou o fundamento da visão predominante nos últimos quatro séculos.
A ciência clássica nasce com um projeto de desencantamento do mundo, expressão do projeto da modernidade, que repousa no primado da razão, da ética do trabalho, da fé no futuro e no progresso tecnológico. Este projeto transformou a natureza em um autômato e o homem num ser estranho ao seu ambiente. Criou um mundo onde o sensível, o gosto, a magia, o religioso, a intuição foram alijados, o que significa dizer que o mundo da ciência separou-se do mundo da vida.
Weber se refere ao desencantamento do mundo como resultado do processo de intelectualização/racionalização que acompanha a modernidade: a racionalização do mundo se fundamenta no pressuposto de que tudo o que existe e acontece, (....), é regido por leis que a ciência pode conhecer e que a técnica pode dominar; e nada existe que não seja previsível. Para tudo o que existe há uma explicação científica. É um mundo, portanto, totalmente desprovido de sentido.

A ilusão da visão objetiva da realidade
Para Weber, a ética protestante, que se instala com a Reforma, é o início desse desencantamento, que só vai se realizar plenamente na lógica da economia capitalista. Lógica que tem seu fundamento na "imagem científica do mundo", que lhe dá o elemento fundamental para seu desenvolvimento: o conhecimento. Conhecimento que se constrói sobre dois pilares: um sistema tecno-econômico e um sistema burocrático-administrativo, sustentados pela ilusão da visão objetiva da realidade.

Um projeto que fracassou
Um dos fracassos desse projeto é que ele não ofereceu respostas para as questões existenciais dos homens, não ofereceu espaço para a sensibilidade. E, mais que tudo, foi instrumento, enquanto visão de mundo, da construção de práticas espoliadoras, expropriadoras e destruidoras dos seres humanos e da natureza. Toda a discussão sobre a crise da racionalidade tem como pressuposto a constatação de que a ênfase no método científico e no pensamento racional, não só foi incapaz de construir uma sociedade de bem-estar econômico e social conforme se acreditava, como levou a humanidade a atitudes e modos de vida profundamente anti-ecológicos.

A era do conhecimento....mas qual conhecimento ?
Hoje se fala em sociedade do conhecimento. Não vou discutir aqui as inúmeras implicações que a crença no conhecimento científico, como orientador das escolhas na nossa sociedade, gerou. Quero apenas destacar alguns pressupostos que considero fundamentais para entender a relação entre a ciência e o processo de construção do modo capitalista de produzir e consumir, modo de produção e consumo responsável pela deterioração das relações sociais, individuais e dos ecossistemas, pois, como afirma Francisco Mendonça, o modelo de desenvolvimento moderno que marca a história do Ocidente constrói e destrói paulatinamente a natureza e a sociedade (....). Ou seja, o modelo de desenvolvimento moderno é o modelo capitalista, cuja subjetividade se expressa na ganância, na busca do lucro, na acumulação material, na espoliação, expropriação e destruição da natureza e dos homens entre si.

Entender os pressupostos do pensamento clássico para é importante
Quando Capra fala em crise de percepção, está falando em crise da subjetividade capitalista. Subjetividade construída em íntima conexão com os pressupostos da ciência moderna e da revolução industrial, com o projeto de modernidade que significou o desencantamento do mundo e que se fundamenta em valores, princípios, crenças etc., que levaram a escolhas destrutivas do ecossistema planetário (sociedade e natureza). Neste sentido, entender os pressupostos do pensamento científico clássico é importante porque eles nos permitem refletir sobre a necessidade de mudança de percepção se quisermos trilhar outros caminhos.

A separação Homem/Natureza
O primeiro pressuposto, que tem íntima relação com a questão ambiental, é a separação Homem/Natureza. A ciência clássica percebe a natureza como um autômato transformando-a em objeto de observação e manipulação. O primeiro diálogo da ciência com a natureza foi experimental: observar, compreender, modificar. Conhecimento se transformou em sinônimo de manipulação. Claro que a ciência teve sucesso: descobriu acordos entre hipóteses teóricas e respostas experimentais, o que contribuiu muito para nos relacionarmos com a realidade.
Mas o sucesso da ciência moderna se fundamentou na idéia de uma natureza morta e passiva, desqualificando as visões das tradições e as questões que os homens colocavam a respeito de sua relação espiritual com a natureza. Isso significou negar a complexidade e o devir, afirmando um mundo eterno, passível de ser conhecido a partir de leis simples e imutáveis, através da razão.

A visão cartesiana aplicada à natureza
Uma das conseqüências dessa separação foi a concepção de que o Universo é um sistema mecânico composto de objetos separados, que para ser conhecido deve ser reduzido a suas unidades materiais elementares. Essa visão foi estendida a todos os sistemas vivos: biológicos, sociais, ecossistemas, levando a uma fragmentação do conhecimento e das práticas da vida. Fundamentou ainda a atitude de exploração do meio ambiente natural como se ele fosse fragmentado, atitude também responsável pela degradação ambiental hoje no planeta.

A dominação da natureza e a dominação entre os homens
Por outro lado, a exploração da natureza foi acompanhada pela exploração dos homens entre si. Em sua obra, Manuscritos Econômicos e Filosóficos, Marx afirma que a forma como os homens tratam a natureza tratam os outros homens. A natureza passou a ser vista como selvagem e perigosa, que deveria ser conhecida para ser dominada, explorada, manipulada. A dominação, manipulação, exploração estendeu-se aos seres humanos, pois, tratando-se do modo de produção capitalista, a dominação, a exploração e a manipulação têm sido o padrão predominante em todas as relações: da natureza aos seres humanos.

O pressuposto da separação matéria/espírito e mente/corpo
Outro pressuposto foi a separação matéria/espírito, que se expressou na afirmação de que a essência da realidade é o mundo material. A ênfase no mundo material teve como conseqüência modos de viver que enfatizam o ter em detrimento do ser, a crença no progresso material ilimitado a ser alcançado através do crescimento econômico e tecnológico, a concepção de que a vida em sociedade é uma luta competitiva pela sobrevivência. Este é um dos fundamentos do modo de ser capitalista, onde a tecnologia tem sido instrumento de controle, de padronização, de produção e de consumo de massa.
A separação matéria/espírito significou, ainda, a separação mente/corpo. Descartes relaciona o existir ao pensar. Todos conhecemos seu enunciado "penso, logo existo", cuja conseqüência foi a ênfase no pensamento racional, na Razão, tão bem expressa pelo Iluminismo. E, ao conhecimento científico, campo por excelência do conhecimento racional, foi atribuído o estatuto de Verdade: objetiva, neutra, a única e melhor maneira de descrever e explicar a realidade. A ciência se tornou instrumento de conhecimento e de controle da realidade: as ciências naturais, conhecimento e controle da natureza; as ciências humanas e sociais, conhecimento e controle do homem e da sociedade. As ciências do homem se dividiram em ciências da mente e ciências do corpo e foram acompanhadas por uma fragmentação cada vez maior, as especializações. Em nome da ciência muitas escolhas foram feitas. Escolhas que têm nos levado à situação limite que vivemos hoje no planeta, cujas dimensões Capra tão bem coloca em sua obra "O ponto de mutação".

A visão utilitarista do mundo
Cabe ressaltar, ainda, que a forma de lidar com o conhecimento e com as práticas da vida tem se orientado pelo pressuposto da separação entre sujeito/observador e objeto. Este pressuposto alimentou a ilusão de que a realidade é separada não só do observador/cientista, do observador/especialista, mas de nós enquanto seres que nos relacionamos com o mundo no qual vivemos. Esta separação se fundamenta no pressuposto de um mundo dado, criado independente de nós, o que significa a ilusão de que é possível olhar para ele de forma neutra, objetiva, assim como explorá-lo, manipulá-lo, controlá-lo, pois não é visto como produto de nossa atividade: está aí para nos servir.

O mundo nos foi dado, portanto não somos responsáveis por ele
Uma das conseqüências desse pressuposto foi não nos sentirmos responsáveis pelas nossas ações. A responsabilidade está sempre fora de nós, no Outro, seja ele alguém de nossas relações afetivas, profissionais, o governo e até a Natureza. Nunca, por exemplo, se cobrou ética e responsabilidade do cientista, pois a atitude de separação em relação ao objeto garante que o conhecimento que ele produz é objetivo, neutro e lhe dá poder sobre os que não detêm conhecimento. Neste sentido, as escolhas políticas, econômicas, sociais, em relação à natureza etc., fundamentadas no conhecimento científico, nunca são questionadas, pois achamos que quem produz ciência, quem conhece, é também sábio. Outra conseqüência desse pressuposto é a separação entre realidade objetiva e realidade subjetiva (entendida como representação, ilusão, idéias, aparência), onde a realidade objetiva se impõe como "a realidade".

O princípio da reversabilidade e o universo-máquina
A ciência clássica, ainda, se fundamenta no princípio da reversibilidade - acredita-se que é sempre possível voltar a uma situação anterior -, nos princípios do determinismo, das relações de causa e efeito, da imutabilidade, do equilíbrio, da estabilidade - existe uma ordem natural nas coisas e qualquer elemento, em qualquer dimensão da vida, que desestabilize essa ordem, deve ser eliminado para que se estabeleça a ordem inicial. Quando trabalhamos com transgressão, marginalidade, patologia, anomia, problemas, estamos pensando a partir da visão de que há uma ordem que está sendo quebrada e que precisa ser recuperada. Esta percepção está intimanente ligada à visão de um universo máquina, composto de objetos/peças, regido por leis imutáveis. Como peças se desgastam e precisam ser consertadas ou substituídas, achamos que podemos sempre consertar ou substituir o que destruímos. Não percebemos que a vida é processo e o processo é sempre irreversível.
 
A ciência contemporânea, ou ciência da complexidade e a consciência sistêmica
Mas, se a ciência clássica é o paradigma que ainda fundamenta a visão de mundo predominante em nosso planeta, a ciência contemporânea - ciência da complexidade - pode nos dar o referencial para a mudança de percepção, para a construção de uma nova consciência - consciência ecológica, orgânica, sistêmica -, que nos auxilie na construção de um planeta sustentável, de uma vida sustentável em todas as dimensões: humana, social e dos ecossistemas.
A ciência da complexidade tem seus fundamentos na 2ª lei da Termodinâmica, na Física Quântica e Relatividade, na Concepção Sistêmica da Vida, na Teoria do Caos e na Matemática da Complexidade.

A segunda lei da termodinâmica e a irreversibilidade
A segunda lei da Termodinâmica, que no século XIX foi interpretada a partir da entropia, no século XX é reinterpretada no sentido da irreversibilidade/flecha no tempo, como o fenômeno da auto-organização espontânea, das rupturas, das evoluções no sentido de uma complexidade e diversidade crescentes. A irreversibilidade é construtiva: expressa o fenômeno da auto-organização, das coisas que nascem e morrem ou que se transformam em singularidades. Prigogine expressa a irreversibilidade através do conceito de flecha no tempo, de processo.

As incertezas, as rupturas e o caos são construtoras de novas ordens
Na ótica de Progogine, a imprevisibilidade, a incerteza, as rupturas, as bifurcações, as pequenas diferenças, imperceptíveis, são entendidas como os caminhos da natureza, o que significa dizer que são potencialmente construtoras de novas ordens. Neste sentido, ordem e estabilidade não são sinônimos de equilíbrio e nem caos e turbulência de desequilíbrio: na sua interpretação, o caos não leva à destruição, mas é (....) portador de uma complexificação infinita do mundo, a própria processualidade da ordem, ou seja,
o movimento permanente de decomposição de ordens vigentes e composição de novas ordens, em múltiplas direções, imprevisíveis.
Ordem e desordem são entendidas como elementos fundamentais do processo de construção do mundo.

A física contemporânea produz uma reviravolta : a interconexão de todos os fenômenos
Além da reinterpretação da Termodinâmica, no início do século XX, a física contemporânea produz uma reviravolta na concepção da física clássica. Mostra que o Universo não funciona como uma máquina, nem pode ser decomposto em unidades mínimas, com existência independente. Deve ser visto
(....) como um todo dinâmico e indivisível, cujas partes estão essencialmente inter-relacionadas e só podem ser entendidas como modelos de um processo cósmico.
Quer dizer, os pressupostos filosóficos da física contemporânea nos permitem perceber a interrelação e a interconexão de todos os fenômenos: físicos, químicos, psíquicos, econômicos, políticos etc. Se a física clássica tinha como centro de suas análises os objetos, a física quântica enfatiza as relações: os conceitos de rede e relação são fundamentais para pensar o Universo. Para Amit Goswami,


A natureza é um todo, dinâmico e interativo
A natureza não é uma soma de elementos isolados e estáticos, mas um complicado tecido de eventos, no qual conexões de diferentes espécies se alternam, se sobrepõem ou se combinam, de forma dinâmica, em movimento.
A mudança de enfoque, do objeto para relação, é fundamental para entender a nova visão de mundo que se impõe a partir das descobertas da física contemporânea. Segundo Bateson, a noção de relação deveria ser ensinada às crianças desde pequenas: qualquer situação deve ser definida por suas relações com outras situações e não pelo que seria isoladamente. Pensar a partir de relações é aprender a "pensar como pensa a natureza", o que nos ajudaria a viver em harmonia no nosso planeta.

Iria Zanoni Gomes - 2005


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quarta-feira, 20 de março de 2013

PROPOSTAS PARA UM PLANETA REALMENTE SUSTENTÁVEL - Os desastres ambientais não são causados pelas desigualdades sociais, mas pela lógica capitalista - Reduzir drasticamente (e não economizar) é imprescindível para a sustentabilidade - O pertencimento coletivo - Salvar a si mesmo significa salvar a própria família, a própria nação, o planeta e todas as formas de vida - A necessária mudança de valores e atitudes - A educação transformada como meio de transformação - Conceitos da dinâmica da vida, das interações e das intedependências - Mudanças pontuais, porém radicais, podem promover grandes efeitos e transformações - "....construir um modo de ser ético e estético, que deverá estar presente em todas as relações: pessoais, sociais e com a natureza...."


Aprendendo com as comunidades tradicionais....À noite,
enquanto conversa, a mulher debulha o feijão andu colhido
no quintal. Você imagina um mundo sustentável, assim,
dependendo de nossa civilização super moderna e
tecnológica ?....Onde está a solução ?....
Por Iria Zanoni Gomes, socióloga

Entrevista à Revista Diocesana Catedral – Cascavel/PR – ano XX – No. 176 – fev./mar. – 2011


AS DESIGUALDADES SOCIAIS E OS DESASTRES AMBIENTAIS

Revista - As desigualdades sociais, presentes no Brasil, podem colaborar para o acontecimento de desastres ambientais, pois a questão ambiental não é somente técnica, na visão de que nós somos parte pensante na natureza. Em sua opinião, por que isso acontece?
Iria - Penso que a questão colocada exige um reparo. As desigualdades sociais não colaboram nem determinam a ocorrência de desastres ambientais. Pensar assim é separar as desigualdades sociais, entendidas aqui como econômicas e sociais, da questão ambiental. Na visão de que somos parte pensante da natureza, não é possível separar o social do ambiental. Ambos devem ser pensados dentro da lógica capitalista para que possamos entendê-los. A destruição da natureza caminha junto com as desigualdades sociais, com a injustiça social, porque a lógica capitalista, do lucro, da ganância, da exploração, destrói tanto a natureza quanto os seres humanos. Portanto, não são as desigualdades sociais que são responsáveis pelos desastres ambientais, mas é a lógica capitalista que gera tanto um quanto outro.


REDUZIR O CONSUMO É MAIS IMPORTANTE
Revista - É preciso encarar a realidade e admitir que a vontade de salvar o mundo, caminha, passo a passo, com o desejo de consumir. Tão importante quanto o estímulo à reciclagem, seria também importante o incentivo à redução do consumo?
Iria - Pode-se dizer que há uma contradição entre o desejo de salvar o mundo e o padrão de produção e consumo vigente na nossa sociedade. Quando se propõe o "desenvolvimento sustentável", se pensa em estabelecer limites e atitudes para assegurar a vida no planeta através da preservação dos recursos naturais e do melhoramento da qualidade de vida das populações. Ora, a noção de recursos naturais implica exploração, o que é coerente com o conceito de desenvolvimento, mas incompatível com o conceito de sustentabilidade, pois "desenvolvimento" tem sido entendido como crescimento, exploração de recursos (naturais e humanos), enquanto o termo "sustentável", tomando emprestada a definição de Fritjof Capra, significa a capacidade de satisfazer as nossas necessidades e aspirações sem diminuir as oportunidades das gerações futuras. Portanto, o modo de produzir e consumir vigente na sociedade capitalista é insustentável, pois destrói os recursos naturais (água, florestas, biodiversidade), polui a biosfera, gera um volume de lixo acima das possibilidades do planeta de reciclar, desertifica extensas áreas, cria desigualdades sociais, extermina populações etc. Portanto, a reciclagem é necessária, mas não é suficiente para resolver a questão do excesso de lixo produzido na sociedade contemporânea. A sustentabilidade exigiria, sim, reduzir o consumo. Mas, podemos nos perguntar se isso seria possível sem mudança no estilo de vida, nos valores vigentes que a subjetividade capitalista impõe.


O SENTIDO DE PERTENCIMENTO É IMPRESCINDÍVEL, MAS IMPENSÁVEL NA ÓTICA CAPITALISTA
Revista - A senhora acha que falta ainda a sociedade entender que a questão ambiental não é apenas ideológica, mas de atitude? Qual seria a dificuldade das pessoas assumirem um compromisso na preservação dos recursos naturais?
Iria - Quando se fala hoje em crise ecológica, não se está apenas fazendo referência à questão ambiental. Está se falando da crise do sistema capitalista, cujo modo de produzir e consumir transformou a vida no planeta insustentável, seja do ponto de vista pessoal, social ou da natureza. Portanto, para que ocorresse uma mudança de atitude em relação à necessidade de preservar a natureza seria necessário que a organização social e a nossa relação com a natureza fossem transformadas. Isso exigiria uma mudança de consciência no sentido de perceber a nossa interação e participação na construção da realidade em que vivemos. Um sentido de pertencimento nos permitiria sermos éticos, compromissados, responsáveis, conscientes das consequências das nossas escolhas. Isso é impensável na ótica capitalista.



UMA ESCOLHA POLÍTICA, MAS NÃO A POLÍTICA DOS PARTIDOS
Revista - A senhora afirmou em seu artigo "Desenvolvimento Sustentável: mito, contradição, paradigma e percepção" que transformar a nossa relação com a natureza é muito mais uma escolha política do que econômica. De que forma podemos entender isso?
Iria - Penso que essa pergunta é uma continuidade da anterior. Eu disse, em meu artigo, que a transformação da organização social e da nossa relação com a natureza era necessária para construir uma vida sustentável em nosso planeta e que isto implicava em escolhas políticas mais do que econômicas, como também a construção de uma nova percepção de mundo, novos valores, atitudes, estilos de vida, uma nova consciência. Em primeiro lugar, quero deixar claro que quando falo em política não estou me referindo à política partidária nem ao poder concentrado no Estado, que é inerente a esse tipo de política. Estou me referindo ao entendimento de que todas as nossas escolhas são políticas e estão relacionadas à nossa percepção de mundo, valores, atitudes, forma de interação com a vida em todas as suas dimensões. Ora, tudo isso expressa uma determinada maneira de ser e de fazer, o que está ligado à percepção. Capra fala que vivemos hoje uma crise de percepção. É possível pensar que mais do que uma crise econômica, viveríamos hoje uma crise política, no sentido de que depende da humanidade a escolha de novos caminhos para continuarmos a viver neste planeta?



O DESENCANTAMENTO DO MUNDO 
Revista - No mesmo artigo, a senhora se refere ao "desencantamento do mundo" como um processo que se realiza na lógica da economia capitalista. Podemos dizer que desde que uma criança nasce, cercada pela busca do rápido e do prático, a sensibilidade em relação à natureza fica comprometida?
Iria - O "desencantamento do mundo", no sentido weberiano, nasce com a ciência clássica e expressa o projeto da modernidade, assentado no primado da razão, da ética do trabalho, da fé no futuro e no progresso tecnológico, da eficiência técnica, na primazia do conhecimento científico em detrimento de qualquer outro tipo de conhecimento e se realizou plenamente na lógica da economia capitalista. Criou um mundo onde o sensível, o gosto, o mágico, o religioso, a intuição foram alijados, separando o homem da natureza, o que o tornou um estranho ao seu ambiente. Quando a criança nasce encontra um mundo ao qual ela precisa se adaptar. A essa adaptação chamamos de processo de socialização. Num primeiro momento, a socialização se dá na família. É ali onde ela aprende as primeiras regras, normas, padrões vigentes na sociedade em que nasceu. Num segundo momento, a socialização se dá na escola. Em princípio, poderíamos dizer que a escola é uma continuidade da família. Na escola a criança vai completar o processo iniciado na família se preparando para a inserção na sociedade, principalmente através do trabalho. Existem ainda outros processos de socialização coletivos: grupos religiosos, de lazer, esportivos, por faixa etária etc. Ora, a socialização é o processo em que a criança interioriza a visão de mundo da sociedade em que nasceu o que significa não apenas uma determinada maneira de ver, mas de fazer. Quando você afirma que a sensibilidade em relação à natureza fica comprometida, você tem razão na medida em que a natureza na sociedade capitalista é considerada apenas um recurso natural a ser explorado e não um bem sagrado a ser preservado.


O CAPITALISMO CAUSA "ESTRANHEZA" ENTRE AS PESSOAS
Revista - Compromete também as relações sociais, já que no capitalismo a busca do lucro diminui a percepção das pessoas umas com as outras, surgindo uma exploração dos homens entre si?
Iria - Marx mostra muito bem como no modo de produção capitalista o produto do trabalho humano, a mercadoria, faz com que as relações entre os que produzem as mercadorias assumam a forma de relação social entre coisas e não entre produtores. Como neste modo de produção o dinheiro é a forma acabada da mercadoria, é ele que dissimula, encobre o caráter social do trabalho, do produto do trabalho, enfim, de todas as relações sociais. Quando você se refere à busca do lucro como um elemento que diminui a percepção das pessoas umas com as outras, eu diria que a busca do lucro é uma das expressões da coisificação das relações sociais, um dos valores da subjetividade capitalista, que expressa o estranhamento dos produtores não apenas em relação ao produto do seu trabalho, mas em relação a si mesmos, aos outros homens e à natureza. Talvez pudéssemos afirmar que o modelo de desenvolvimento capitalista, que hoje é mundial e integrado, cujos valores são o lucro, a ganância, a acumulação material, a exploração, a espoliação, destrói tanto a natureza quanto os homens entre si.
 
 
ALÉM DE EDUCAÇÃO ÉTICA E AMBIENTAL NAS ESCOLAS.... 
Revista - Que tipo de trabalho pode ser desenvolvido nas escolas para uma formação mais consciente a respeito da vida? Isso pode contribuir com a construção de novos valores?
Iria - Entendendo a escola como um instrumento de socialização dos indivíduos, ela adquiriu na nossa sociedade um status privilegiado de introdução do homem ao mundo do trabalho, o que se dá através da transmissão de conhecimento, pois se entende que este se adquire, se possui. Numa sociedade onde tudo gira em torno do mercado e da mercadoria, ter conhecimento e controlá-lo significa ter poder. Foucault nos presenteou com suas sábias reflexões a respeito da relação entre saber e poder que não cabe aqui discutir. Ao invés de preparar o indivíduo para a vida, de ensiná-lo a respeitar a vida, transmitir valores como ética, compromisso, responsabilidade, amor, paz, verdade etc., a escola tem sido um instrumento de reprodução das relações sociais e dos valores predominantes na nossa sociedade, dos quais já fiz algumas referências anteriormente. Basta lembrar o que está acontecendo hoje dentro das escolas no que se refere à questão da violência.

APRENDERMOS COM AS SOCIEDADES TRADICIONAIS
Numa época em que se luta tanto por direitos humanos, direitos das minorias, reconhecimento da diversidade cultural, talvez seja o momento de aprendermos com as sociedades tradicionais - antes que as exterminemos -, que o conhecimento é uma dádiva e que a pedagogia pode ensinar às pessoas que, para que a vida tenha continuidade, é preciso respeitar, reconhecer, receber e usar, sem destruir, as dádivas que a natureza lhes oferece. Essas sociedades sempre deram muita importância à colaboração e ao compartilhamento entre todos os seus membros e ao aprendizado de que todos devem trabalhar pensando na preservação de tudo o que se usufrui para as gerações futuras. A cooperação é entendida como requisito para assegurar a sobrevivência e o bem-estar de todos. Vale lembrar que é também uma das características básicas dos ecossistemas, o que lhes permite a sobrevivência. Assim como os ecossistemas são organismos vivos e estão organizados num padrão rede, as sociedades tradicionais se sentem como um organismo vivo em que não há separação entre os membros desse organismo, nem deles com a natureza. Aprender a compartilhar é considerado mais importante do que a aquisição de qualquer habilidade técnica. A escola pode, sim, ser um instrumento de uma formação mais consciente a respeito da vida e contribuir com a construção de novos valores desde que assuma que seu papel não é ser meramente uma legitimadora dos valores dominantes. Na prática, tal mudança não poderá acontecer introduzindo-se apenas algumas disciplinas no currículo, como por exemplo, Educação Ambiental, Ética etc. Haverá necessidade de uma ruptura na concepção que se tem da vida e de como a escola pode interiorizar e expressar na sua prática essa concepção, ou seja, fazer novas escolhas.



EM HARMONIA COM A NATUREZA - Processo dinâmico e interdependente
Revista - O que significa "pensar como pensa a natureza"?
Iria - O físico Amit Goswami e outros, no livro O Universo autoconsciente: como a consciência cria o mundo material, afirma: A natureza não é uma soma de elementos isolados e estáticos, mas um complicado tecido de eventos, no qual conexões de diferentes espécies se alternam, se sobrepõem ou se combinam de forma dinâmica, em movimento. Essa concepção de natureza exige que se deixe de ver a realidade a partir de objetos separados para percebê-la como um jogo de relações. Para Bateson, a noção de relação deveria ser ensinada às crianças desde pequenas, ou seja, qualquer situação deveria ser definida por suas relações com outras situações e não pelo que seria isoladamente. Como a consciência humana tem um papel fundamental no processo de observação e construção da realidade, a experiência da conexão, da interconexão, de relações, é uma experiência da consciência. Penso que é essa experiência que nos permite fazer a conexão com a Natureza, com os outros seres e com nós mesmos. E é neste sentido que não podemos falar da Natureza sem falar de nós mesmos, o que nos leva a concluir que pensar a partir de relações e conexões é "pensar como pensa a natureza". Provavelmente, se conseguíssemos pensar como pensa a natureza teríamos uma grande chance de viver em harmonia com todas as formas de vida em nosso planeta.


SUSTENTABILIDADE PRESSUPÕE A VIABILIDADE NÃO SÓ DAS GERAÇÕES FUTURAS DE HUMANOS, MAS....
Revista - Quando vamos poder dizer que o mundo está se tornando sustentável? O que o homem precisa fazer para que isso realmente aconteça?
Iria - A construção de uma vida sustentável exige um diálogo entre o Homem e a Natureza e um compromisso com as futuras gerações. Sabemos que os desafios são muitos e que uma transformação global para um mundo sustentável não será fácil, nem se fará de repente e espontaneamente. Penso, como Guattari, que é preciso uma articulação ético-política entre o que ele chama os três registros ecológicos: o meio ambiente, as relações sociais e os indivíduos. Chama essa articulação de Ecosofia, a qual seria capaz de operar uma verdadeira "revolução política, social e cultural", que reorientasse a produção e consumo tanto de bens materiais quanto imateriais. Uma revolução que se daria num processo contínuo de reinvenção, de reconstrução de nossas percepções e práticas, na ótica da responsabilidade e da ética, do amor e da paz. Essa revolução significaria dar espaço para a heterogênese, para a diferença: nos três registros (mental, social e do meio ambiente), tornarmo-nos cada vez mais solidários, mas cada vez mais convivendo e aceitando as diferenças, a diversidade, a biodiversidade. Significaria construir um modo de ser ético e estético, que deverá estar presente em todas as relações: pessoais, sociais e com a Natureza, lembrando que a emergência de novas práticas, num campo, passa a se instaurar em outros campos. A construção de uma vida sustentável permitiria à humanidade retomar a confiança em si mesma, bem como a responsabilidade pelo seu próprio destino e pelo destino do ecossistema planetário.


PEQUENAS MUDANÇAS, GRANDES EFEITOS - A TEORIA DO CAOS
Revista - Pequenas mudanças, grandes efeitos?
Iria - Um dos pressupostos da Teoria do Caos, que nasce na segunda metade do século XX, é de que "pequenas mudanças podem produzir grandes efeitos". Foi uma verdadeira revolução na Ciência, similar à provocada pela Física Quântica e Relatividade. Ou seja, qualquer elemento que se introduza num processo, por mais insignificante que seja, modifica significativamente o processo. Prigogine expressa essa mesma visão ao constatar que a imprevisibilidade, a incerteza, as rupturas, as bifurcações, as pequenas diferenças são entendidas como os caminhos da natureza e são potencialmente construtoras de novas ordens. O caos, portanto, não leva à destruição, mas é (...) o movimento permanente de decomposição de ordens vigentes e composição de novas ordens, em múltiplas direções, imprevisíveis. Isso exige estabelecer um novo diálogo entre a história dos homens, de suas sociedades, de seus saberes e a aventura exploradora da natureza. O estabelecimento desse diálogo permitiria recuperar o sagrado em nossa vida, entender o sentido de estarmos aqui, o que nos ajudaria a modificar nosso modo de ser e de estar no mundo. Essa pequena mudança traria grandes transformações no sentido de agir não como seres indiferentes ao processo da vida, mas como participantes conscientes, responsáveis e éticos, fazendo escolhas que levem em conta que elas repercutem em nossa vida, na vida dos outros seres humanos, das outras espécies, do planeta, do cosmos inteiro.

Iria Zanoni Gomes - 2011

Publicação inédita neste blog sob autorização da autora.
Titulos e sub-titulos criados pelo editor.
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